MINHA VIDA É UM PALCO

MINHA VIDA É UM PALCO
Somos como atores neste palco que é o mundo, as cenas são os dias e noites, e o roteiro quem escreve é a VIDA!A vida depois dos 60. É começar novo, novos horizontes, um mundo diferente e muito mais LEVE! A gente está sempre começando, sempre aprendendo...E aos 60 anos, a gente nasce de novo! A minha Infância da Maturidade! COMO SERÁ NOS 70?Na minha ADOLESCÊNCIA da Maturidade...CHEGUEI! Cheguei chegando imaginando a vida toda...70 ANOS! BÓRA LÁ QUE A VIDA TÁ PASSANDO!!!E até uma PANDEMIA!Nunca pensei ...De repente, ficar presa em casa, sozinha. Se sair, o CORONA VÍRUS pega. Horrível todo mundo sem se tocar.

sábado, 26 de outubro de 2013

INFERNO

 Revisitei a "Divina Comédia",  fui até o inferno de Dante Aliguieri ao ler 
"INFERNO"de Dan Brown. Parece que estava em Florença, tudo descrito com detalhes, inclusive as obras dos florentinos famosos, as ruas, museus, igrejas, depois foi  Veneza, terminando em Istambul. Sem falar na ideia de ver o Planeta sem salvacão.Para quem gosta, vale a pena ler. Com paciência. Mexe com nossas verdades.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

DEZ melhores depois dos 60



1.- Morar sozinha(o).
2.- Usar "caixa prioritário".
3.- Parar na vaga do shopping com Credencial de Idoso ( para ver comédias no cinema).
4.- Jogar fora o celular.
5.- Hidroginástica e massagem só com professor  gostosão.
6.- Nunca falar em doença ( mesmo com tudo doendo).
7.- Nenhum animal de estimação( tem que viajar, viajar).
8.- Almoço de domingo em casa ( dos outros).
9.- Ler todos os best sellers eróticos.
10.- Duas horas de Facebook por dia: SÓ!( depois, RUA).

(Se alguém sexa quiser aumentar a lista, é só acrescentar em "comentar". Mas só se tiver + de 60). 

A PROVA REGISTRADA E PUBLICADA

A Mirinha ficou me gozando, quando falei que ia fazer uma Imersão Literária. "Oh, Bella, vai passear, vai pra Disney ver o Pateta ou pro Caribe procurar um Pirata, larga essa de Literatura...Aposentada, darling, sossega, sombra e água fresca( ou melhor: churras e cevas)."
Resisti bravamente aos conselhos da Mirinha, essa querida e louca amiga. Fui. E me sinto muito melhor depois de ser aluna de novo.
É muito bom receber um certificado depois dos 60, "só quero curtir filhos e netos, viajar, descansar", mas parece que tem um bichinho cutucando nosso cérebro e nossa acomodação, dá uma vontade de aprender novidades.Renovar ideias, recarregar projetos, quem sabe um novo livro. Sem deixar de curtir todo o mundo, tudo junto e misturado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

IMERSÃO LITERÁRIA e Turismo.

O que é IMERSÃO LITERÁRIA? 
"Entrar em uma banheira imensa e ser coberta de livros." Isso de acordo com a Mirinha.
Mas não foi isso que aconteceu comigo. 
 Recebi um convite do James McSill, coaching do United Kingdon, gaúcho, radicado em Yorkshire, na Inglaterra,  para participar de uma Maratona de Imersão Literária em Canela, RS. Encontrei um cirurgião de textos. Um furacão de atualidade em Literatura.
 Aprender o quê, como, para quê escrever, isso foi uma experiência pra mim. Conhecer novidades na arte literária! Olhar diferente para um novo público leitor. O escritor deixa de ser o centro, o texto passa a ser protagonista, o leitor é quem manda na minha inspiração - que deve ser muito mais transpiração.Quem quer cntinuar a ler depois da primeira página? Quais as técnicas para despertar o interesse? O que me interessa, interessa pra quem?
Aprender. Sempre aprender.
 Encontrar novas pessoas, novos objetivos, sonhadores e empresários,corretores e poetas, editores e promotores de eventos,artistas e diretores de teatro, roteiristas e diagramadores,  escrever para vender, agradar, motivar, emocionar... 


Um lugar longe do agito, todo dia respirando Literatura.Só nós, da Maratona.
Concentração total. James é extremamente
cativante, teoria com muita prática, grupos de estudo, descoberta dos sentidos, dar felicidade,  escrever e escrever, linguística e valorização da sintaxe, da concordância, da regência, isso me deixou muito feliz, usar a perfeição da escrita, a professora que existe em mim ficou maravilhada. Escrever é muito gratificante. Escrever bem é uma arte. 

Utilizar as ferramentas da tecnologia com inteligência, sem cansar a platéia, também foi um aprendizado.



E a turma foi pra Gramado, à noite, café colonial,alimentar também o corpo. Nota DEZ para o Bela Vista.E para meus novos colegas, todos fascinados na Imersão.






Depois de toda essa maratona de enriquecer a alma,dei uma de turista e registrei em Gramado alguns momentos interessantes, como o táxi de um peruano que veio do Canadá, passando por todas as Américas:










 Raridades de Hollywood, décadas de 50 e 60, também emocionantes, quem não desejou andar num cadillac?



                                                     


O meu sonho de adolescente:




                                                                  
                                                                             E a fantasia do Museu de Cera, outra viagem...





                                               Marilyn Monroe e Elvis Presley.E eu.

 Num PUB inglês.



 


Peter Pan, Capitão Gancho e Jack Sparrow...dos Contos de Fadas ao Cinema com Johnny Depp, sempre releituras do imaginário infantil.








  O grande sucesso da Literatura dos jovens deste século, Harry Pother,a aventura da imaginação com o realismo fantástico dos bruxos, para usar uma expressão atual, Histórias Repaginadas.

Não podia faltar minha aventura de ficar grudada no teto, com o Homem Aranha:












segunda-feira, 7 de outubro de 2013

QUEM QUER SER VOLUNTÁRIA?



Mirinha chegou com uma novidade. Como sempre, novidade pra Mirinha é pleonasmo. Mas desta vez fiquei paralisada.
- Bella, queres ser voluntária junto comigo?
Levei alguns segundos para entrar na história da Mirinha. Domingo à tarde, família já comeu e bebeu, e foi embora. Pensei que ia ficar jogada no sofá pensando na vida. Nem deu para pensar muito, veio uma avalanche de palavras, me sacudindo e enrolando na confusão. Mirinha entrou a mil.
- É assim, quero fazer alguma coisa de utilidade nesta vida folgada de aposentada, quero ajudar o próximo, entendes?
Entendi. Aliás, não entendi. Mirinha não sabe tricô nem é capaz de visitar asilos e creches. Nem vender rifa pra escola conseguia. Nunca sacrificou um domingo pra ajudar na quermesse da igreja. Será que ela vai fazer voto de pobreza e dar todas suas roupas aos pobres?
- Já comecei. Ontem. 
Ontem foi sábado. Choveu todo dia. 
- É o seguinte - continuou Mirinha, toda afobada, atropelando as palavras - fui convidada pra ser voluntária do Hospital, vamos comprar cadeiras de rodas pra quem não pode pagar, vamos, Bella. Podes começar a ter alguma utilidade nessa tua vida inútil...
Agora fui ofendida no fundo da minha alma. Não sou inútil. Fiz um baita almoço de domingo pra família,comeram, beberam e se foram. E eu achei que ia dormir um pouco. Mirinha continuou, nem aí pra minha cara de cansada. 
- É assim: precisamos juntar 10 garrafas pet cheias de lacres de latinhas, sabe, abre a latinha e tira o lacre...Nosso trabalho é consumir a cerveja pra poder juntar os lacrezinhos...Trouxe um fardinho de Brahma...Nesta tarde de domingo, podemos juntar 12 lacres! 
Genial essa minha amiga! Domingo à tarde, chuva lá fora e nós aqui, filme do ABBA, estourando latinhas  e ajudando o próximo.
Trabalho Voluntário.
Tô dentro!

terça-feira, 2 de julho de 2013

MIRINHA FOI PRA RUA

Mirinha voltou, assim, de repente, como um furacão, pra me sacudir da agradável e organizada vida de sexagenária aposentada. A Mirinha é a minha amiga, também gaúcha professora aposentada, e que também veio pra Curitiba atrás dos filhos que moram aqui, e que me inferniza a vida, cada dia com uma novidade. Tenho um monte de histórias dela neste blog.
 Depois ( ou antes ) de um tenebroso inverno, eis que chega minha amiga cheia de novidades e completamente revolucionária. Pensei que ela andava em Rio Grande, no Balneário Cassino, matando as saudades das amigas e matando as amigas também...Parece que ela tem um bicho carpinteiro, está sempre inventando alguma coisa, provou toneladas de doce na Festa em Pelotas - e é diabética -  almoçou cada dia na casa de amigos - jantou  camarão no Matos, galeto no Tito, xis no Tilinho e no Fabiano,pizza no aniversário da Ju em RG, muita Brahma pra acompanhar, e terminou numa consulta na Clínica do Cassino, com seu amigo-médico-pediatra-salvador que atualiza seus exames e  remédios. Pois a louca fez todos os exames de laboratório - para aproveitar o IPÊ -  e passou em tudo! Que sorte a dessa maluca, nem triglicérides, nem colesterol...Fiquei até com ciúme, principalmente dos amigos e do nosso médico.
Mas voltando ao assunto... que mania de espichar a história, bem coisa de gaúcho ...
Domingo, almoço em família, todo mundo foi embora ver o jogo do Brasil em suas casas, eu podre de cansada, me joguei no sofá. Faustão falando besteira na TV, e  entra o Furacão - não o Atlético- a Mirinha. Toda de branco, arrastando uns cartazes, me puxando:
- VEM PRA RUA!
- Que é isso, Mirinha? Mãe de Santo? 
- Vamos...Boca Maldita. Protesto, amiga! Sai dessa poltrona, chega de acomodação, as massas na rua... olha nossa importância na História,"Ouviram do Ipiranga às margens plácidas"e não te esquece, primeiro a gente sonha, depois a gente ama...
- "Brasil de um sonho intenso,um raio fúlgido"..."Brasil de amor eterno seja símbolo"...fui eu que te ensinei, Mirinha. Agora, POR FAVOR, senta, te acalma e me conta onde andavas... 
 - O GIGANTE ACORDOU! Estou pronta! Já andei em todas as manifestações, até máscara coloquei, sabe, aquelas de um sorriso preto numa máscara branca? Pois são uns safados, máfia internacional, querem bagunçar o Brasil...Não deixei, arranquei as máscaras, todos uns burguesinhos que vieram da KU KLUX KAN, ou nazistas, ou sei lá o quê...
- Mirinha, te acalma, vivente, estás dizendo coisa sem coisa, onde andavas, criatura? Teus filhos ligando e eu sem saber...
- Pegamos um ônibus de Rio Grande pra Porto Alegre, dizer pro Tarso que ele nos traiu,inventou um piso pro magistério quando era ministro, e agora é um governador fascista, traidor, mentiroso, gritei tudo isso, mas em PAZ, reunião no Ocidente, que tristeza, não é mais o mesmo, acabou tudo em quebra-quebra, olha, até eu apanhei...Mas a luta continua...E temos uma NOBRE CAUSA!
- Mirinha, calma, amiga, me conta com detalhes...
- O negócio é ir pra RUA...Fui ao Cassino, queria explodir a ponte do Bolaxa, ninguém me deixou, está tudo embaixo dágua, nem meus colegas quiseram participar da manifestação...
- Querida...amigaaaaa! Calma, me conta, estás tão revoltada...É a Dilma? É o Tarso? Somos aposentadas do RS, aqui em Curitiba o prefeito é o Fruet e o governador é o Richa lindinho...nada de Tarso, capiche? Muda o foco...
- Estou em pânico, em stress, vou chamar a Rosane, minha psico, já deixei cartazes em POA com o pessoal do CPERS e do Bom Fim, quem sabe até o Luis...
- Que Luis?
- O Veríssimo, ora bolas, ele é analista de Bagé mas pode...
Gente! A Mirinha surtou! É melhor concordar.
- Tá bem, Mirinha, vou contigo, mas só até às sete da noite. Tem jogo do Brasil às nove, chuva e frio, voltamos pra casa, um vinho faz bem e tem a sobra de guerra do almoço, combinado? Qual a reivindicação?
 Então, a Mirinha me surpreendeu:
- Já estou com todos os cartazes, olha:



Que criatividade da Mirinha. E eu ainda acho que devia ser:
BOLSA ANÁLISE PARA TODOS OS PROFESSORES!
Tem razão, minha amiguinha maluquinha! 
(Mirinha, só tu pra me levar pra rua com frio e chuva...)
Domingo, 1 de julho de 2013, em Curitiba.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

IVO RODRIGUES, O PRIMEIRO GAY OFICIAL DO BRASIL





                                            Achei esse retrato, essa raridade, numa postagem de um amigo que leu minhas histórias e me mandou. É da década de 60. TAÍ o IVO, de vestido comprido, lindo, a moça ao seu lado não sei quem é, mas a história dele que eu conto no meu conto de dois anos atrás é DE VERDADE! o CAUSO É LONGO, mas TUDO foi bem verdade!


                                        O PRIMEIRO GAY OFICIAL DO BRASIL

Minha sobrinha quer que eu vá ao cinema com ela. Está passando um filme de uma surfistinha com o mesmo seu nome, Bruna.
Vou pro Google, saber detalhes, tem que ter muito cuidado, e se for pornografia? Esse Google...meu melhor conselheiro, informante, posso chamar de amigo, tira todas minhas dúvidas. Achei tudo que precisava, a Bruna do filme é uma mocinha que resolve ser prostituta, dá muita grana. Detalhe: a mocinha é classe média, mas estava se dando mal na escola particular, os pais cobrando notas melhores, a garota trocou estudo por baladas e concluiu que a mais antiga profissão do mundo dava muita grana – e não precisava de diploma. Programa com quem pagasse bem, corpo bonito, pra que passar trabalho e queimar neurônios? Uma reboladinha, a ganhava mais que o pai e a mãe...Ficou rica, a Bruna do filme. Não levo minha Bruna pra ver isso. Polêmica em vista: como pode influenciar as cabecinhas das nossas menininhas essa sugestão de dinheiro fácil? Prostituta fina. Garota de programa. Isso me fez lembrar de uma história que presenciei.
Muita paciência, que o causo é comprido:
Minha família morou sempre na fronteira da Argentina, Uruguaiana, Rio Grande do Sul, lá não tinha essa coisa de garota de programa, ou era virgem, moça de família ou era vagabunda, mulher da vida. Se alguma mocinha tivesse um caso consumado – que hoje dizem “ficando”- ou casava ou o pai botava pra fora de casa. Ela, a ex-virgem, só achava refúgio nas casas de meretrício, cabarés tipo “Bataclã”, da Gabriela do Jorge Amado. Ou coisa pior. Minha tia era costureira, das boas, tinha muitas clientes, eu ficava sentadinha ao lado da máquina, aprendi a costurar assim, olhando os panos que se transformavam em obras de arte. De manhã, eram finos tecidos de Paris, Buenos Aires, Rio e São Paulo, para as esposas de estancieiros, vestidos longos cheios de frufrus para as filhas debutantes, cetins e rendas para as noivas, que pareciam princesas, como Daiana, a da Inglaterra, a maravilhosa exemplar que morreu num acidente com o amante – não gosto de
princesas, prefiro plebeias, são mais verdadeiras. Tudo era com hora marcada no ateliê da minha tia: de manhã, eram escolhidos e provados os vestidos das senhoras da sociedade e de suas ricas filhas, das tradicionais famílias da região. À tarde, chegavam as outras, também mulheres dos estancieiros, as filiais, as mulheres da vida - essas eram muito alegres, muito pintadas, roupas decotadas, eram as chinas - nenhuma mulher de família falava com elas nem elas com as de família. Eu era criança, ninguém se importava comigo, eu ficava muito quieta ou me mandavam pra casa. Ficava brincando de fazer roupa para as bonecas, mas meus ouvidos bem abertos e meus olhos espiando todo o movimento. Sabia que as chinas trabalhavam de noite e dormiam de manhã, via que chegavam de carro de praça, os táxis de hoje, com lenços na cabeça, entravam correndo, não gostavam de serem vistas, eu até pensava que tinham alguma doença. Já dentro do ateliê, eram pessoas tão iguais a qualquer outra mulher, e pagavam muito bem pelos vestidos, davam gorjetas às ajudantes, traziam presentes pra todo mundo. Foi aí que conheci o Ivo.
O Ivo foi o primeiro gay público do Brasil. Lá na fronteira chamavam de “fresco”. Nada de drag queen, homossexual, travesti, gay, era fresco mesmo, e ninguém ia preso por isso. Então, o Ivo era O fresco mais famoso do Brasil, ele morava num palacete rosa, bem em frente à Delegacia de Polícia, diz-que o quarto dele era forrado de espelhos, tinha cama redonda, tudo cor de rosa, cheio de bonecas de louça, trazidas da Europa. Eu ganhei uma boneca, ele mesmo me deu, e falou “não diz que fui eu”e eu nunca disse, como se o presente fosse da minha tia. Eu não sabia bem qual a diferença, mas o Ivo era um homem que se vestia de mulher, só de noite, na casa dele. Chegava para experimentar seus vestidos sempre à tardinha, numa carroça que chamavam de Vitória, uma meia cabine alta de lona preta, daquelas de “O Tempo Levou”, com cocheiro de uniforme no banco da frente, dois cavalos gordos bem tratados, arreios de couro lindos, com franjas. Ivo era um homem grande, pesado, dois metros de altura, cabelos ralos, uma boca com beiços imensos, olhos claros, puxados,
ninguém nunca soube sua origem, ele usava roupas de homem, muito largas, alpargatas argentinas. Dizem que foi criado por um estancieiro muito rico que lhe deu uma educação francesa, daí os gestos tão refinados. Tinha um grande desgosto e uma grande vergonha: era analfabeto. Ficou muito emocionado quando eu aprendi a ler e li pra ele uns poemas, ele sentado num banquinho, tão meu admirador, minha tia costurando um vestido de veludo roxo, cheio de fendas de onde saiam babados de tule rosa choque. E tinha quinze perucas, uma de cada cor, e milhões de sapatos número 54, de plataforma, quase todos dourados, obra de um sapateiro da capital, ou Novo Hamburgo, a terra dos sapatos, e ele vestia a roupa e desfilava, imenso, glorioso, anéis cintilantes e coloridos, batom bem vermelho nos beiços carnudos, nos vestidos mandava bordar flores, trazia figurinos de Pelotas, pedrarias, plumas e paetés, as bordadeiras trabalhando, eu maravilhada, ele foi meu super-herói, um monstro que se transformava em borboleta, podia tudo, fazia tudo. Depois, eu cresci, não podia mais ficar à tarde na minha tia, já sabia o que eram chinas e gays, até meus vestidos eu experimentava pela manhã. Porém a história do Ivo sei contar até o fim.
O Ivo, na rua, sempre na carruagem, era um homem furioso. Tinha um facão pra bater em quem o ofendesse. Naquele tempo, preconceito, discriminação, se resolvia na porrada. Mas o maior respeito não foi conquistado no facão. Foi pelo trabalho social. Ajudava rapazes que queriam estudar e não tinham condições, muitos em universidades na capital. Abrigava as meninas que ficavam nas ruas, as perdidas, que os pais jogavam na sarjeta e a sociedade simplesmente excluía, como se fossem leprosas. A única saída era a prostituição, até por um prato de comida. O Ivo ia às ruas, pegava essas meninas, levava a médico, tratava as doenças, dava roupa, casa, comida, se quisessem, podiam ir embora para estudar em outras cidades, começar vida nova, muitas saíam casadas, uma delas foi minha colega de escola e hoje tem os filhos todos muito bem encaminhados. As mulheres que trabalhavam na noite, a maioria era
profissional que vinha de grandes centros, quando ficavam velhas, tinham até aposentadoria como empregadas. A cidade respeitava o Ivo por isso.
O cabaré do Ivo era visita obrigatória dos grandes políticos da época, Perón, presidente da Argentina, tirou foto com o dono da casa, artistas, cantores, a Casa Rosa – nome que eles deram - era o principal ponto turístico da cidade.
Passaram-se os anos. Com a decadência dos cabarés, que passaram de moda, e com o surgimentos das garotas de programa, as“surfistinhas”, a Casa Rosa fechou. O Ivo mudou-se para uma casa grande no subúrbio, passou a dar refeições para pessoas carentes, roupas e material escolar para crianças pobres, até que ele também ficou carente, sobrevivendo de caridade.
O primeiro homem a se assumir publicamente, oficialmente gay, no Brasil, chegava ao fim. Morreu pobre, abandonado também por aqueles que ele ajudou a se tornarem doutores, os ingratos.
O Ivo se transformou numa lenda. O túmulo dele, construído por amigos verdadeiros, hoje tem velas e pedidos, como pra um milagreiro, tem as bonecas, almofadas, muitas mensagens de agradecimento, sempre cheio de flores. E eu recordei dessa lenda pensando nas meninas que estão por aí, deslumbradas com a juventude do corpo, pela celebridade momentânea, muitas amargando a exploração dos agenciadores, sem um Ivo para salvá-las...
E a minha Bruna pode espernear, se quiser, pois o filme da surfistinha ela não vai ver.