A vida começa aos 60 anos. ATUALIZANDO...a vida começa aos 74. Agora, já estou com 75. A pandemia do Corona Vírus passou. A COVID se transformou em doença, que precisamos tomar vacina todos os anos, o vírus se transformou em coisa igual sarampo. POR ENQUANTO, estou escrevendo, copiando crônicas que escrevi nesses tempos de estranheza numa realidade de idosa. QUANDO eu ficar velha, talvez não tenha vontade de escrever mais. Agora estou com 77 anos. Vou registrar alguma coisa do meu diário.
MINHA VIDA É UM PALCO
Somos como atores neste palco que é o mundo, as cenas são os dias e noites, e o roteiro quem escreve é a VIDA!A vida depois dos 60. É começar novo, novos horizontes, um mundo diferente e muito mais LEVE! A gente está sempre começando, sempre aprendendo...E aos 60 anos, a gente nasce de novo! A minha Infância da Maturidade! COMO SERÁ NOS 70?Na minha ADOLESCÊNCIA da Maturidade...CHEGUEI! Cheguei chegando imaginando a vida toda...70 ANOS! BÓRA LÁ QUE A VIDA TÁ PASSANDO!!!E até uma PANDEMIA!Nunca pensei ...De repente, ficar presa em casa, sozinha. Se sair, o CORONA VÍRUS pega. Horrível todo mundo sem se tocar.
quarta-feira, 22 de julho de 2020
sexta-feira, 17 de julho de 2020
SAINDO DA NOVENTENA
Chega!
Hoje completo 4 meses, 3 dias, 7 horas, 56 minutos, 27 segundos fechada no meu apê. Morrendo de medo do corona me pegar e eu ir pra um hospital que não tem leito pra velha doente com covid ou sem covid, vai ser tudo a mesma coisa, e se eu morrer nunca mais vou ver meus entes queridos, minhas amigas, minhas colegas, o cara da entrega, e o que é um terror: meu celular, nunca mais! Vão me fechar num caixão, vou ser cremada - como eu queria - mas será que vão me queimar direitinho? Não vai ninguém me acompanhar, e as minhas cinzas também serão incineradas como material radioativo? Eu queria minhas cinzas jogadas nos oceanos...Será que vão misturar com cinzas de gremista?
Por tudo isso, fiquei todo esse tempo olhando o mundo pela minha janela. 4 meses, etc.etc.etc.O Inter 2 - aquele ônibus de fole, comprido, já passou lotado, já passou vazio, não passou, agora está mais ou menos cheio, a igreja da frente já fechou, já abriu um pouco sem música, fechou de novo e as poucas pessoas entravam pela garagem, furtivas...Diz-que agora vão entrar com metro e meio de distância umas das outras...Até os velhos e as velhas apareceram caminhando, devagar, abafados pelas máscaras, afastando todas as pessoas que não são velhas. Os cachorros continuam levando as pessoas a passear, fazem xixi e cocô em toda árvore e portão, fazem cocô e os donos com as sacolas plásticas juntando e deixando nos lixos dos outros, ninguém para reclamar.
Gente bem educada, os passantes da minha janela.
Pois HOJE é o dia da minha libertação.
Vou vestir as roupas e sapato novos, que estão guardados para momentos especiais, fiz máscara vermelha com viés branco, meu cabelo que cresceu e está com raízes brancas, me disseram que é moda; "não passar batom", me disse uma amiga que tem prática em sair pra rua, pois mancha a máscara. Dá para pôr brinco, de preferência de brilhante. A bolsa grande não dá pra levar pois atrai o vírus, que estará me esperando lá fora.
Nem vi o noticiário das estatísticas de hoje,quantos pegaram o vírus, essa minha saída deve ser uma decisão minha respeitando o coletivo. Enfim, livre.
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| Vector.me |
Faço toda a volta na quadra, aceno para os carros, dou bom dia pra senhorinha sentada atrás das grades, afinal, consegui !
Bora lá, MUNDO!!!
A volta pra casa, ofegante, satisfeita, emocionada!
(Nem deu trabalho tirar tudo para lavar, um banho relaxante, estou doida pra postar essa minha aventura. Agora tenho novidades...)
sábado, 13 de junho de 2020
SANTO ANTÔNIO, ME DÁ UM MARIDO!!!
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| Plaquinha Casa Festa |
Véspera de Santo Antonio. Já faz anos que não fazemos mais as provas. A gente chamava de PROVA, era um preparo da casa, com a melhor sala com tudo que fosse preciso para realizarmos AS provas: uma bacia grande, copo, água, papel...
Lá fora, um quintal grande ou pátio aberto, ou campo, a fogueira preparada, tinha fogueira todo mês de junho, Santo Antônio, São João dia 24, São Pedro, dia 29, Padroeiro do Rio Grande do Sul, mas no 12 de junho (década de 50), não era dia dos namorados, era o dia de PEDIR MARIDO pro Santo.
Moças, meninas moças, solteironas, todas se reuniam na casa da mãe mais dedicada a desencalhar as gurias. Avós, mães, madrinhas, tias, todas ajudavam a montar a cerimônia. Os pais ficavam na torcida, se a filha fosse uma desfrutável ou muito feia iriam ter problemas.
Quem se lembrar, me ajude, vou falar só das provas mais decisivas e impactantes. E tudo DE VERDADE, a coisa era séria. Quem não se casasse, teria que cuidar dos irmãos, dos sobrinhos, dos velhos da família, e ainda fazer os trabalhos de casa. Casar era ter a própria casa, mandar na vida, fazer sexo. Era uma festa! Muito riso, muita animação, segredos revelados, quem já beijou, tudo esquentando...
Então, as prometidas sentadas ao redor da mesa, as famílias preparando a festa, crianças enxotadas pra fora da casa,Santo Antônio, coitado, com toda a responsabilidade.
Mais ou menos assim:
- copo com metade de água, uma aliança de qualquer pessoa pendurada por um fio do próprio cabelo, pendurava dentro do copo, quase tocando na água; não podia mexer a mão, a coisa era meio sobrenatural, a aliança começava a balançar sozinha, e... quantas vezes a aliança batia no copo, eram os anos que faltavam para o casamento. Algumas devotas do Santo queriam morrer quando a aliança batia sem parar; mas como a moça ficava feliz quando davam duas ou três badaladas...O pior: quando a aliança ficava pendurada, sem se mexer...a criatura ficaria encalhada pro resto da vida!!!E ninguém roubava no jogo. Mas muito engraçado.
- uma bacia grande com água, um barquinho de papel pronto para navegar na bacia, e ao redor, por dentro, colados, papéis com o nome das casadoiras. Fazia um redemoinho na água, e, dentro do barquinho de papel o nome de um dos grandes partidos da cidade, conhecido pelo grupo, desde um garanhão lindão até o mais transparentes ou infeliz dos mortais. O barquinho iria parar num dos nomes. O pior ou melhor é que acontecia o casamento...
- num pedacinho de papel, escrevia o nome do desejado marido, enrolava bem e enfiava dentro de uma laranja:essa laranja ia pra cima da casa. Ficava toda noite lá. Na manhã de Santo Antônio, ia pegar a laranja, devidamente molhada pelo sereno ou geada da noite: se estivesse intacta, nada feito; se amanhecesse aberta, casamento na certa.
- copo com o dedo de todas, nomes dos rapazes colocados ao redor da mesa, alguns pontos de interrogação, falava-se o nome da moça casadoira, o copo escolhia.Interrogação era quando o pretendente ainda não tinha aparecido...Parecia o jogo do copo de hoje, quem sabe, esse jogo surgiu por causa desse desafio junino.
- Segurar a vela pingando na água da bacia: formava uma letra, a letra DO AMADO! E aparecia! Não tinha como roubar...
E lá fora ficavam os guris,os moços, pretendentes e candidatos,nervosos, fumando e bebendo, esquentando a fogueira, esperando que o Santo resolvesse a vida deles...
E o Santo, coitado, todas as mães colocavam Santo Antônio em lugares estranhos, e enquanto a filha não casasse, o Santo ficaria preso, sem vela e sem oração.
Mas como era bom quando dentro da casa a função terminava,era uma gritaria, mocinhas enlouquecidas e alvoroçadas, moços ansiosos já aquecidos, todo mundo ao redor da fogueira, tinha música, dança, muito amendoim e quentão com e sem álcool, muito chimarrão passando de mão em mão, e as mãos passando.
...Pois o namoro vai ser sempre uma conquista e uma surpresa.
Por mais que mudem as atitudes, continuam as escolhas.
Ontem vi a live do Fabio Junior, hoje tenho a live do Luã Santana. Puro amor. Pois namorar é bom.E não adianta querer só virtual. Vou parar por aqui... Santo Antônio é terrível!
segunda-feira, 1 de junho de 2020
O COV ME PEGOU!
Foi uma noite de terror.
Eu não consegui engolir. Uma vez. Duas vezes. Tentei de novo. Nada. Não consigo engolir.Foi bem assim.
Parei pra pensar.
O que está havendo? Minha garganta fechou? Tentei de novo. Nada. Pequei a garrafinha de água, sentei na cama, enchi a boca de água. De novo. Nada. Eu não conseguia engolir.
Pensei, vou levantar. Mas se eu cair no chão do meu quarto? Eu, sozinha. Não adianta chamar, não adianta gritar, o celular ficou carregando na sala. E já é tarde, nem vizinho vai me atender. As pessoas podem achar que eu estava louca.
Mas...
Experimente ficar sozinho, de madrugada, sem conseguir engolir. Um dos sintomas da pandemia. Garganta que fecha.Até minhas pernas estavam frouxas.
E se eu ligar do fixo que tem ao lado da cama? Chamar um filho? Um amigo? O que vai acontecer comigo? Vão me levar para o hospital, vou ter que deixar este meu isolamento com TV, celular, caminha bem quentinha,cozinha cheia de louça do domingo,foi um domingo tranquilo com sol e bergamota e muitas conversas pelo whats, pela janela, pela área aberta do prédio, comida, bebida, lives, muito whats até em grupo.
Consegui engolir um pouco da água. Ainda consigo respirar. Mas não consigo engolir. E as dores já estão no pescoço. Nunca mais vou ver as pessoas que amo.
É o ar. A falta de ar.
O ar que a gente tem de graça, isso não vou ter mais.
Acho que peguei o cov. Ou o cov me pegou.
Acho que quando fui ao mercado comprar ovos.E resolvi comprar bergamota, também. Falei com uma pessoa que estava sem máscara, acho que foi aí, ela estava de longe, mas nunca se sabe.
Ah, já sei! Foi quando peguei o celular da vizinha para olhar a foto do neto, mas ela também passou álcool gel.
Também esqueci de tirar o tênis ao entrar em casa. Devia estar cheio de cov. Mas eu estava de máscara, passei álcool gel em tudo.
Tudo passa como num documentário na minha cabeça, muitos flashes.
E não consigo engolir direito.
Ainda bem que não tomei o zolpiden pra dormir, como vou dormir sem respirar? Dormir mesmo com zumbido dá certo, então! se esse remédio é para eu dormir mesmo com o zumbido gritando na minha cabeça, talvez seja a solução. E se estiver dormindo, não vou me dar conta que não respiro. Tá.
Tomei o remédio. Com água. Consegui engolir um pouquinho mais de água. O ar entrava e saía lentamente.Não lembro de mais nada.
Abri os olhos. A TV continuava ligada, não foi pesadelo! Devo ter apagado. Sempre fico apagada por 5 horas. Mexi pernas, braços, espiei aclaridade, quer dizer que eu estava vica e consciente. Senti o cheiro do frio. Engoli eu mesma. Eu continuava sem engolir direito. Levantei, fui ao espelho, não consegui ver minha garganta. Sem dor no pescoço e nas pernas,passei e cheirei o café, estou com gosto e olfato. O café desceu devagar esquentando tudo, e foi o melhor gole cheio que tomei na minha vida! Eu estava viva e, ao que parece, estou com laringite ou faringite ou qualquer outra ite. Vou esperar. Já estou acordada, escrevendo, rotina da manhã, já engolindo não muito bem, mas funcionando.
Vou continuar observando. Ontem no mercado toquei em muitas bergamotas.E comi algumas. Não passei álcool gel nas bergamotas. Pois é.
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| GauchaZH |
terça-feira, 26 de maio de 2020
HISTORINHAS INFANTIS 2020
Era uma vez um reino encantado habitado pelas amebas.
Estava tudo na santa paz , cada um no seu quadrado e as amebas todas vivendo como amebas: nascendo, crescendo, trabalhando, tendo filho, comendo, bebendo e morrendo.
Certo dia, acordaram com um rugido muito forte, ninguém sabia o que estava acontecendo. E se soubessem, amebas são amebas. Tanto faz, pode ser uma congestão, pode ser uma hemorragia, pode ser um um acidente vascular, tanto faz. Ameba continua ameba, pode até ser uma expulsão de gases.
Mas alguma coisa de podre no reino estava acontecendo.
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| Dreamstime |
Ainda bem que surgiu um vírus pra enfrentar a bactéria. Um vírus que vinha para fazer milagres, aquilo de mudo ver e cego andar. Os vírus estavam, também, se manifestando.
Parecia que a guerra chegara ao reino encantado. Vírus e Bactérias enfim detonariam até as células mais divinas do Universo.
Parece que a guerra nunca mais vai acabar.
Até hoje estão discutindo quando começam os jogos e o carnaval. Quem nasceu primeiro, a bactéria ou o vírus? Ninguém se entende.
E as amebas continuam como sempre. Com a eterna missão de passar.
Nem se deram ao trabalho de se reunir. Afinal, quem se preocupa com amebas?
Discutir o sexo dos anjos? Como boas amebas, no Universo das amebas, muitas ficaram nas praças ou trabalhando, outras continuaram em casa, muitas morreram, muitas nasceram, e assim continuaram felizes para sempre.
quinta-feira, 14 de maio de 2020
E SE...FOR PRO HOSPITAL?
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Foi uma noite de terror. A amiga de uma amiga contou.
Fiquei muito impressionada, Dona Maria teve toda razão em se preocupar. E se....Pode acontecer com qualquer uma de nós, fechada em casa, pensando, afinal, pensar é muito importante.
E se...
Mas o pior de tudo é que pode bem acontecer e ter um final diferente. Depois desta história, já avisei aos filhos que não deixem me levar pro hospital. Quero morrer em casa. Aliás, não quero morrer, mas quero ficar em casa.Sério, não estou brincando. Fique em casa, então, fico em casa!
Estamos numa guerra, e minha turma é igual à da resistência francesa na segunda guerra. Agimos nos porões da consciência. Estamos sempre imaginando o que pode acontecer.E se... o que fazer se infectada pelo inimigo?
Esta é a história:
Dona Maria. Idosa, grupo de risco, 70 anos, cardíaca, hipertensa, mora sozinha.Aqui, em Curitiba. Tem EcoSalva, se tiver alguma coisa, chama a ambulância e tem atendimento, já passou por isso e foi tudo bem, os vizinhos ficaram curiosos, será que está com coronavírus? Não, ainda bem, apenas a pressão andou subindo.
Agora, estava bem. A filha mora longe, com o marido e três filhos pequenos,longe daqui a umas duas horas de viagem. A filha e o marido se revezam nas noites para cuidarem dos filhos, trabalham cada um uma noite, então, a coisa dá bem certinho.
Estava tudo controlado como quer a família, os amigos e os olheiros. A velha é bem tranquila, vive se queixando que está mofada, nem na igreja pode ir. Pior ainda, é o bingo: não tem bingo.Então...até aí, tudo igual pra tudo que é velho, fique em casa é um mantra.
Em casa, sim. Sozinha, nunca. Todo mundo diz isso, mas Dona Maria está sempre sozinha. Não tem o que fazer, fica no whats,vendo bom dia, boa noite, mensagens de que tudo passa. Tem dias que liga para as amigas ou está sem saco e faz palavras cruzadas. Na TV, toda hora é pra dizer quantos morreram lá fora, Covid 19, quantas camas ainda tem ou não tem mais cama, quem quiser morrer não vai poder, nem caixão tem mais. Melhor ficar no Zap Zap.
Dona Maria tem hora certa pra tudo, principalmente para tomar remédio. E também pra falar com a filha e os netos. Com o isolamento e a prisão em casa, Dona Maria é bem organizada, não incomoda muito a família.
Só que...ontem foi a noite do terror.
Dona Maria vai falar com a filha, vídeo no whats, ainda bem que tem isso, as distâncias não existem mais. Poder enxergar os netos todas as noites, brincar com os anjinhos, um com 4, outro com 2, a menor com 6 meses, a Ana tirou as trompas, que facilidade pra engravidar.
- Minha filha, como passaram o dia? O Eduardo melhorou da alergia? - Aninha sempre cansada, pobrezinha, trabalha muito, as crianças todas em casa, a creche acho que nunca mais vai abrir, a vó longe, mas eles não querem que ela more lá, a cidade é muito pequena, mas os salários são bons. A imagem da Aninha surge meio desfocada.
- Sim, mãe,Eduardo está melhor, acho que não vou poder falar contigo agora, vou ligar pro Jorge, ver se ele pode vir aqui pra casa pra ficar com as crianças, estou meio sem forças, acho que é pressão. Tchau, mãe, depois te ligo.
A imagem travou, a câmera desligou, D. Maria ligou de novo, chama chama chama e nada. Chama. Chama. Nada.
E se...
E se Aninha desmaiou?
D Maria liga pra Gilberto. Nada. O genro nunca atende essa hora.
E se o Gilberto não atendeu a Aninha?
E se a Aninha estiver com o corona?
E se alguém chamou a ambulância?
E se a ambulância levar Aninha pro hospital?
E se Aninha for entubada?
E se Aninha morrer?
E se nunca mais ...
D Maria se desesperou. E o Gilberto não atende...E o celular da Aninha não atende.
E se...
Dona Maria vai se vestir e chamar um Uber. Tem que viajar. Precisa se despedir da filha.
O Uber chega. Não leva idoso sozinho.Devia ter avisado que era idosa. O Uber se oferece pra chamar alguém pra ajudar Dona Maria.
Dona Maria voltou pra casa, pro apartamento. Liga de novo para Aninha. Nada. Gilberto, nada.
Dona Maria ligou pro síndico.
- Calma, Dona Maria, a senhora não conhece ninguém mais na cidade? Me passe o número de sua filha e do seu genro. Da empresa que eles trabalham.
Dona Maria desligou o celular pra procurar os números. Onde está a caneta? E o papel? Dona Maria não sabe mandar contato. Precisa ter calma, agora não é hora de ter chilique.
Celular toca. Dona Maria olha com medo. É o Gilberto.
- Dona Maria, aconteceu alguma coisa? Tem várias ligações suas, eu estava em atendimento...
- Gilberto, a Aninha, Aninha quer falar com você...
- Sim, mas...A senhora está bem?
- Para onde levaram Aninha?
- Dona Maria, Ana está com as crianças em casa...
- Ela ia chamar você, Gilberto.Aninha está doente.
- Não está doente, não. Ela mandou mensagem há pouco, Eduardo estava com alergia de gato.A senhora está bem? O que aconteceu, Dona Maria? Quer que chame alguém?
- Não, Gilberto.Não sabe se chora, se briga, se reclama, melhor nada, vão dizer que está louca. Fala devagar: Eu tive um sonho ruim, só isso.
Alergia de gato...Mas eles não têm gato...
E se ...
E se...
A história ainda teve mais detalhes chocantes, era pra rir, todo mundo estava achando muito engraçado, a velha estava louca, sim.
Mas eu me coloquei no lugar de Dona Maria...
E se fosse um filho, uma filha...Uma amiga.
Velho não pode sair.
E se?
...
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