Quando eu conto que vi um lobisomem, todo mundo diz que é mentira. Mas eu vi. Tem uma história, até eu apresentá-lo a vocês.
Quando eu ia para a escola, o Círculo Operário, passava pela casa dele. Na quinze. Ele era um homem muito alto, estava sempre à janela, era uma casa das que ficam com a parede na calçada , duas janelas e a porta no centro, sem muros, às vezes eu me esquecia e quando me dava conta, estava embaixo da janela do seu Firo ( vou chamar de seu Firo, não posso usar o nome verdadeiro, os parentes podem não gostar de ter um lobisomem na família). Parece que ele ficava ali esperando nós passarmos: eu e minha amiga Malu (que morava numa casa de outra rua,dobrando a casa do seu Firo, os fundos da casa dela davam pros fundos da casa dele)tínhamos muito medo do seu Firo. Está meio complicado, mas história de lobisomem é assim.
Um dia, seu Firo nos esperou parado à porta: muito alto, calças pretas imensas, camisa branca de mangas cortadas pela metade, um olho meio fechado, uma bengala imensa, daquelas trabalhadas, de madeira."Meninas, querem uns caramelos?" Pernas pra que te quero - nunca corremos tanto. Chegamos no colégio apavoradas, dona Terezinha, a professora, nos ouviu. " Pobre do velhinho, por que vocês fugiram?" ( Naqueles tempos, não se sabia nem o que era pedofilia, velhinho era velhinho, mesmo). Só voltamos para casa pela calçada oposta à do seu Firo - a da Vila Militar. E ainda estavam construindo um castelo ao lado da casa dele, eu tinha certeza que era do Drácula, um castelo de verdade, quem duvidar, vai lá ver.
A empregada do seu Firo foi comprar carne no açougue do meu pai, contou que seu Firo não tinha parentes, era solteiro e solitário,só comia carne crua.Todo mundo comentou.
( mas ele tinha parentes, sim, vieram pra herança).
Era noite. Eu na casa da Malu, minha mãe deixou porque minha irmã mais velha estava lá também, na casa da vizinha. As pessoas se visitavam, era um bom papo no lugar da TV que não existia. A gente estava na sala dos fundos, jogando canastra. Foi-se a luz. Velas acesas, todo mundo da casa na mesma peça. ( não esqueçam os terrenos de fundos das casas Malu-seu Firo ). Noite de lua cheia, janelas abertas. Uivos dos cães de um vizinho, sargento do exército, parece que estavam chorando(os cães - um deles se chamava Inho, furioso, sempre na corrente), gritaria das galinhas no galinheiro da mãe da Malu. Fechamos as janelas muito rápido, luz de vela deixa tudo mais misterioso. Barulhão no galinheiro, a mãe da Malu estava pronta para ir ver o que acontecia. Um baque na porta, como se um bicho muito grande estivesse se jogando e arranhando." Deve ser uma raposa, daquelas que roubam galinhas, ou o cachorro, o Inho". Todos nos abraçamos, Dona Zilu não teve coragem de sair. Os cães do vizinho estavam enlouquecidos. Voltou a luz. Um uivo mais longo, o sargento-vizinho deu uns tiros . Dona Zilu abriu a porta, a janela, um cachorro muito grande pulou o muro para o terreno do seu Firo, eu vi, um rastro de sangue. "Acertei o bicho"- gritou o sargento-vizinho. Luzes no pátio, galinhas sem cabeça, o Inho com a garganta rebentada, a porta toda arranhada.Uma sanguera só.
É O LOBISOMEM! Eu e Malu gritando: É O LOBISOMEM! O sargento-vizinho também pulou o muro, mas só tinha uma poça de sangue.
Voltei para casa nos braços do pai da Malu, tremendo, chorando, passei muito tempo sem sair à noite( à noite as crianças brincavam de roda, de mocinho, não tinha perigo). E o seu Firo só apareceu uma semana depois, com o braço na tipóia. A empregada disse que ele caiu no banheiro. Mentira. Os outros não querem contar. Mas eu conto. Ele era o LOBISOMEM. Ele rebentou as galinhas de Dona Zilu e rasgou a garganta do Inho. E muita gente que não acreditava, passou também a não sair nas noites da lua cheia. E eu conto: Eu vi. Parecia um cachorro, ou um urso imenso. Eu vi O LOBISOMEM se rolando no chão.Todo mundo viu, mas tem vergonha que não acreditem. E era o seu Firo, o Lobisomem.
Eu só tive paz depois que ele morreu.Eu e toda vizinhança. Mas ninguém conta. Eu conto. Eu VI...Tem gente que não acredita. Até o dia em que se topa com um...
A vida começa aos 60 anos. ATUALIZANDO...a vida começa aos 74. Agora, já estou com 75. A pandemia do Corona Vírus passou. A COVID se transformou em doença, que precisamos tomar vacina todos os anos, o vírus se transformou em coisa igual sarampo. POR ENQUANTO, estou escrevendo, copiando crônicas que escrevi nesses tempos de estranheza numa realidade de idosa. QUANDO eu ficar velha, talvez não tenha vontade de escrever mais.
Lobisomem?!
ResponderExcluirNão sei não...
Mas Drácula covarde escondido em seu castelo ah, existe sim!!!
Ahahahahahah, Gina, e tem os parentes do Drácula, os Draculinhas...conheces algum?
ExcluirQue migué! Escutei essa estória minha vida toda, mas ninguém provou nada nunquinha!
ResponderExcluirHistória de Lobisomem não tem prova...é como de marciano, acredita quem acredita...quem não acredita, até o dia em que acha um Lobisomem...quem sabe está dormindo com ele...
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